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O amor é cego

Com um suspiro apaixonado, o silêncio varreu os pensamentos tolos para longe e os tachou de estúpidos; "o amor é cego", ele dizia para si mesmo. Não havia razões para se iludir outra vez com esta doce mentira atordoante, cuja estava o rodeando nas últimas noites.

Esteve pensando naquela moça há algum tempo. Aqueles olhos vívidos o atraia para um novo mundo misterioso, um sentimento agradável que transbordava em deleite de seu peito por mais que lutasse contra si mesmo. Era impossível resistir ao caramelo daqueles olhos. Simplesmente belos, o coração derretia por vê-la. Então emergia o sorriso de sua expressão franca, sempre distante, mas, surpreendentemente, ele ficava apenas distante da racionalidade enquanto tinha ela por perto. Distraído como não era, as arfadas esbanjavam uma emoção raramente cobiçada pelos sábios, embora soubesse que somente um tolo abandonaria esta oportunidade de conhecer o lado belo da vida. Ele não a queria — tentou afirmar, porém já estava perdido no dilema do amor. 

Encontrou-a em seus sonhos noites mais tarde. À primeira vista, a beleza exuberante daquela mulher estava envolta de um nevoeiro; uma nebulosa formada por descrença, pois, no fundo, ele sabia, recusava-se a aceitar que queria aquilo. Desejar um corpo junto ao seu assassinava a física, a qual comprovava que dois corpos não poderiam ocupar o mesmo espaço. Era exatamente o que ele queria. Estar onde ela estivesse, tocando o que ela tocava, seguindo seus passos. Estava ficando louco, tinha certeza. Portanto, passou a cruzar com ela em seus sonhos sombrios: o brilho de vida nos olhos dela tinha se esvaído. Ele não entendia. Anteriormente aterrorizado por uma imagem encantadora, ele ficara deslumbrado por sua outra face banhada em sangue. Eram ambos criados no mesmo ninho, conheciam o inferno como conheciam a própria mente, ela o amaria mais do que qualquer coisa e ele faria a mesma coisa. Estariam entrelaçados nas mentiras apaixonantes.

Enfim, decidiu tentar. Entregou o coração para a bela moça certa tarde. Deixou-o dentro de uma caixa encharcada com sangue e se escondeu em um arbusto, onde poderia observá-la ver seu presente. Ela o encontrou, abriu a caixa e os olhos arregalaram. O presente a fez tão feliz que começou a gritar. Aquela caixa foi arremessada para a calçada por pontapés alegres, então viu-a correr com uma expressão estranha para dentro de casa para trancar-se. Talvez ela quisesse brincar de esconde-esconde. Sorrindo, aceitou o desafio. Antes do anoitecer, iria encontrá-la como costumava fazer em seus sonhos mais doces.

Cumpriu a promessa pouco antes das oito horas da noite. Ajudou a belíssima moça a deitar na cama para descansar, apesar do ferimento em seu peito continuar sangrando, ele sabia que em breve ela ficaria bem. Então fariam a mudança para sua casa e cuidaria de sua amada. 

O amor é realmente cego e ele ainda não entendia por que diziam isso. 

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