In my dream, you had no face.
No meu sonho, você não tinha rosto — você não passava de uma figura fantasmagórica refletida no espelho quando eu parei na frente dele para contemplar minha imagem. Meus olhos encontraram os seus e nossos mundos colidiram numa explosão de sonhos inalcançáveis, mas, ainda assim, você não tinha rosto. Não sei quais olhos cruzaram meu olhar nesse intervalo. Sequer consigo imaginar se você tinha um nome ou se você era real. Talvez fosse fruto dos meus pensamentos íntimos, aqueles que finjo não ter noção da existência para não lidar. Quem sabe fosse nada, mero nada, uma criatura inexistente que esbarrou com meu reflexo durante alguns segundos antes de eu piscar meus olhos e perdê-la de vista para sempre. Ou poderia ser tudo; tudo que estive buscando minha vida inteira poderia ter se mostrado para mim em sua forma, com seus olhos leitosos e aparência desfocada, uma silhueta sombria me encarando de volta com a mesma descrença que eu a direcionava.
Contudo, assim que eu pisquei mais uma vez sua imagem grotesca e igualmente cativante se desfez, me levando de volta para meu quarto, do qual eu nunca sai. Então retornei para frente do espelho, observei a figura, pisquei meus olhos, esperei por uma resposta, um vislumbre de sua existência. Mas não apareceu nada. Embora estivesse olhando para você, eu não te vi. Questionei minha sanidade, me perguntei se estava lúcido ou ainda dormindo. E esperei. Eu esperei com o mesmo anseio de uma criança para abrir os presentes de Natal, e esperei por um longo tempo para te reencontrar. Para rever seus olhos e fazer nossos mundos colidirem novamente, para criar uma nova cor com nossos desejos esquecidos. Eu queria trazer você à vida — sem ter certeza se você já estava vivendo em algum lugar na minha mente ou no mundo. E quanto mais olhava para o espelho, senti sua presença surgir. Eu senti você, mas ainda não te via.
No meu sonho, você não tinha rosto, porém havia uma voz. Poderia não te pertencer no início, mas suponho que tenha vindo de você, da sua direção, de dentro do espelho. Primeiro ouvi letras, que formaram sílabas, e as sílabas formaram palavras. Eram sussurradas, então ondulavam em resmungos, depois se transformaram em gritos. Esses gritos, as palavras que você me disse eram capazes de fazer eu chorar, mas não eram altas o suficiente para me machucar — bem, não fisicamente. Não sei se posso dizer o mesmo sobre meu psicológico ou emocional — embora pudesse sentir a ira chamuscar no fundo da sua garganta, prestes a arrebentar as cordas vocais e te silenciar por toda eternidade.
A eternidade parece uma piada agora, pois nem mesmo ela é tempo suficiente para eu entender você. E quem você é, quem poderia ter sido... Os seus pedaços que deixou para eu montar, para eu reconstruir. Esses cacos não encaixavam. Ainda não encaixam. E eu não sei o que fazer com eles. Considerei jogá-los fora, mas escolhi guardar. Guardei mantendo o pensamento esperançoso de que um dia eu olharei para o espelho e te verei lá.
No meu sonho, você não tinha rosto. Então como poderei te encontrar?
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