Meus sentimentos espalharam no chão e mancharam meu corpo, vermelhos e vivos feito carne de um animal ferido, moviam e misturavam. A garganta fechou, os olhos arderam e a vontade de vomitar veio em uma velocidade absurda. As lágrimas estragaram a maquiagem que fiz especialmente para você, alcançaram o batom vermelho-vinho e projetaram seu caminho para o inferno. Seu braço sobre o ombro dela e aquele sorriso angelical transparecendo inocência: a imagem desvaneceu diante de meus olhos quando os seus pousaram em mim. Você encontrou meu olhar e as labaredas dentro deles, a raiva tremulava em minha alma feito chamas. As palavras deslizaram por sua boca; um chamado desesperado por meu nome. Eu desconhecia esse tom e sequer imaginava que um dia ouviria algo do tipo ser usado para você se direcionar a mim.
Não fui capaz de captar sua voz, no entanto. Mantive minha atenção na figura escondida atrás de você. Ela pressionava o suéter de poliéster contra o próprio corpo, o mesmo suéter que eu vesti àquela tarde, três de dezembro, justamente no meu aniversário. Eu queria gritar para mandá-los embora. Eu queria que você desaparecesse e nunca mais visitasse meu lugar especial — como pôde ter a ousadia de trazer Heather para meu esconderijo? Eu confiei em você! —, porém quanto mais forçava minha voz a sair, mais lágrimas rolavam por meu rosto. Suas mãos trêmulas ergueram-se para me alcançar, você se esforçou para me explicar o que estava acontecendo, mas não dei ouvidos. Apenas sorri e corri para longe.
— Michelle! Michelle! — você é um monstro do inferno; pensei quando te escutei me chamar. Apertei o passo e tentei escapar da escuridão que nascera de minha partida, era uma corrida contra o tempo para ter um pouco de paz.
Entretanto, eu não estava sozinha naquele lugar. Ainda conseguia te ouvir dizer meu nome no tom que normalmente me deixaria fraca, mas ouvir naquele momento apenas me dava vontade de gritar até a garganta rasgar. Durante os zigue-zagues para te despistar, forcei-me a dizer o que estive tentando esconder de você. Talvez assim pudesse me deixar para trás de uma vez por todas.
— Eu queria ser Heather! — afugentaram seus passos, por fim. Não ouvi a sola de seus allstars nem as chaves sacodindo nos bolsos de seu casaco.
Encontrando este impasse, parei de correr. Não poderia mais fugir da realidade. Eu precisava assumir a verdade como parte de meu coração; justamente uma parte que eu não poderia me livrar. Um corte que sempre irá sangrar. Suspirei e virei para você, seus olhos arregalados enquanto sua mente brilhante tentava trabalhar para assimilar o que tinha escutado de mim. Embora ainda doesse, te ver tão envergonhado diante da minha declaração trouxe um sentimento caloroso, porém este morreu instantes depois. Heather apareceu na esquina envolvida no suéter, os olhos azuis marejados iluminavam qualquer rosto sombrio de tão brilhantes. Um colírio para os olhos, de fato. Como eu poderia odiá-la? Ela é um anjo.
Parados em uma avenida vazia, trocávamos olhares silenciosamente. Os postes fincados na calçada eram testemunhas daquele peso sobre meus ombros, o medo em seu rosto e a preocupação de Heather. Éramos apenas nós três, sempre foi assim. Não entendo como permiti meus sentimentos desviarem desta forma, arruinaram tudo e muito mais. Estavam prestes a findar a união que existiu entre nós três durante anos.
— Michelle.
— Você é um monstro do inferno — rosnei raivosamente, incapaz de controlar a raiva que crescia em meu peito. Dei alguns passos para trás, um tanto atordoada. Ambos arregalaram os olhos conforme uma luminosidade amarelada emergia da escuridão na avenida. — Eu não me importo com o que você diz!
— Michelle!
— Você é cruel! — era tarde demais para qualquer reparação. O tempo tinha esgotado. Numa distância mínima, escutei o som de uma buzina estrondosa. Exibi meu melhor sorriso enquanto encarava seus olhos. Eu queria ser vista por você. Queria ouvir sua voz gritar meu nome uma última vez. — Eu sou realmente idiota, não é? Como fui tola.
— Michelle! Michelle!
Quando você deu um passo para frente, o baque interrompeu seus movimentos. Meus sentimentos espalharam no chão e mancharam meu corpo. Desta vez fora sua garganta que fechou, seus olhos que arderam e a vontade de vomitar lhe acertou rapidamente. Você caiu de joelhos, encarava a imagem terrível ao lado de Heather, cuja estava paralisada aos prantos olhando para o vermelho-vivo.
A porta do caminhão abriu, da cabine desceu um homem assustado. Chamaram a ambulância e a polícia foi acionada.
Eu queria ser especial para você, mas não te deixei respirar e agora você murmura entre lágrimas súplicas para eu ir para casa.
Eu queria ser...
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