Pular para o conteúdo principal

Apaixonado pela Morte

Ele está enlouquecendo, lentamente se transformando em seu demônio. Acabará entendendo quando chegar no inferno; saberá que não estarei aqui para sempre. Então, irá me matar afogado; afinal, um cadáver não pode fugir. Seu amor ardente queimará cada parte de mim. Irá me consumir até restar cinzas de minha rebeldia, e ele as jogará fora para não ter de lembrar desse momento traumatizante.

Está perdendo a cabeça para os rugidos estridentes. Aquela alma banhada em ingenuidade sucumbiu à sujeira, empoeirada em caos e manchada de tristeza, ela carece sua grandeza. E reduzida a uma vida sem luz, ele perambula pela escuridão. Caminha de quarto em quarto procurando perdão, chamando meu nome, lamentando o passado. Ele murmura enquanto dorme que estarei melhor morto, assim poderemos estar juntos. Pois seu amor é capaz de preencher meu vazio. Essa mentira reverbera seus ossos alto o suficiente para me tocar em meu túmulo; um buraco raso debaixo do piso.
Apenas observo seu sono pesado. Os olhos azuis carregados de arrependimentos, eles se recusam a abrir. Ele sabe que irá me encontrar bem ali: um eco do passado que insiste em retornar de novo e de novo para o assombrar.

Eu me afoguei nos seus oceanos; o azul profundo me puxou pelos pés obsessivamente para dentro da escuridão. Contemplei a grandeza de seu coração profano, me apaixonei novamente por esse lado sombrio, embora não pudesse lhe dizer isso. Quando o momento chegasse, eu olharia naqueles olhos; quando o momento chegasse, suas mãos envolveriam meu pescoço, cheias de culpa; quando o momento chegasse, estarei te chamando — por favor, me mate o quanto antes. Eu estarei te esperando.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O inverno é o inferno

Se a beleza é relativa, o que garante que o sangue que faz meus olhos brilharem  — aquele que torna meu ser mais vivo  — contém uma beleza real? Mesmo que requintada, mesmo que eu a aprecie sozinho... Ela é verdadeiramente linda, como eu imagino? Posso estar cego. Eu sei  que estou cego. Não consigo entender o mundo, não o vejo da maneira que deveria. Sua essência e aquela que sinto ser sua essência são coisas diferentes, fora do meu controle. Eu não posso continuar brincando comigo. Terei que jogar a boneca fora. Devo enforcá-la, ou fazê-la ter uma overdose? Devo arremessar o brinquedo na rua ou de uma ponte? Como eu me livro dessa maldita boneca desgraçada , que todos preferem que esteja morta, pois é mais fácil esquecer a lidar com o problema? Mas a boneca nunca vai embora, não é? Eu sempre a mantenho guardada aqui por medo de precisar dela um dia. Mesmo odiando a boneca, mesmo odiando ela , mesmo eu me  odiando... ainda estou aqui. Se eu realmente quisesse, eu po...