Pular para o conteúdo principal

Máscaras, labirintos e ansiedade: perdição noturna

 Contornando meu corpo usando traços invisíveis, o ar gelado me embala em beijos estranhamente acolhedores; calorosos, eu diria, se não estivesse tão enjoado das ondas de calor. Um suspiro escapa de meus lábios, as pálpebras fechadas calmamente em uma tentativa de manter a aparência tranquila, embora estivesse percorrendo um labirinto por dentro — busco incansavelmente por uma identidade, pois a máscara de porcelana cobrindo meu rosto está prestes a cair. Os olhos irão rolar em minha direção e o ar será tomado de meus pulmões. Eu não estou preparado para lidar com a realidade sem alternar os papéis neste jogo ridículo de prioridades: meu objetivo é manter viva a imagem da garotinha decente que procuram em mim. Sei que está morta. Talvez nunca tenha existido, mas não posso simplesmente cuspir a verdade desta forma. Mal conseguem compreender a diferença entre horizontal e vertical, apesar de a explicação ser simples. A resposta não encaixa nos padrões deles, portanto procuram por outra, alguma mentira boba que pretendem contar uns para os outros em um telefone sem fio estranho e interminável, assim podem aceitar a realidade como ela não é e assumi-la como verdadeira.

Os pés descalços recebem um agrado do chão frio. Sem choques nem arrepios. Movimentam-se de um lado para o outro no cômodo, cambaleando pelo quarto feito um sonâmbulo. Um sonâmbulo sem sono, sonhando acordado em um pesadelo disastroso enquanto caminha sozinho na própria mente. As respostas se entrelaçam e se perdem, tornando a escuridão e o vazio paralelos, quase os uniu por um instante, mas isto levaria meus pensamentos repetitivos em uma colisão entre dois estados desconexos. Resultaria em um caos em minha mente bagunçada. Mais caixas para organizar, mais papeis para empilhar, e eu terminaria amassando tudo e os queimando em uma chaminé de memórias. Esqueceria tudo outra vez; mais um dia seria desperdiçado e eu retornaria ao fundo das caixas, movendo pilhas, correndo por caminhos sem saída. 

Calor emergira do meu peito e exibiu-se através do vapor que saiu de minha boca. Um gesto gentil de sua parte, apresentar-se timidamente e condensar para recuperar a alma para o corpo, embora não pudesse trazer consigo as memórias queimadas em pilhas nas chamas crepitantes. Eu morri novamente naquele silêncio. A noite engolia a paz e seu conforto em mordidas gulosas, deixando para trás migalhas de ansiedade e desespero, vez ou outra pedaços de paranoia. Perdi meu centro. As estrelas foram resguardadas da urbanização pelas nuvens, a inocência possuiu o céu em um brilho convincente, mas oscilante. Eram elas rindo de mim por trás das nuvens e eu as amaldiçoando em cima do cobertor. Não havia um silêncio completo durante meus devaneios, afinal, ainda encontro-me acordado. Os pensamentos arrastam pela minha cabeça e se espalham de forma barulhenta, porém tinham sorte de as mordidas da noite serem mais ruidosas do que seus estalos. 

A inconsequência os seduzia para a parte mais obscura de minha mente. Paranoias eram transformadas em impulsos nervosos; ansiedade e o desespero se beijavam e amavam, causando um desastre maior e mais violento debaixo da minha tranquilidade. Por fim, a máscara balançava com os movimentos bruscos, ameaçando cair e descobrir meu rosto. Eu ainda não estou pronto para vê-lo, pois eles não estão prontos para me entender. Em um ato impulsionado pelo pânico, eu corri para longe antes da porcelana tocar o chão. O gramado grunhia quando meus pés o amassava, as paredes surgiam da terra e me cercavam, criticando silenciosamente o ímpeto que tomara conta de meu corpo.

Sozinho, no escuro, em silêncio, eu perambulo feito um sonâmbulo sem rumo. Sem sonhos para seguir e um destino para chegar, tampouco um objetivo para alcançar. A tempestade era fogo e as faíscas queimavam cada parte das minhas lembranças — resumiam o passado a meras pilhas de cinzas, o déjà vu as varria despreocupadamente enquanto eu encaro uma situação familiar, embora seja perturbador ter vivido momentos que não lembro. Então visto a próxima máscara e a espero cair, afogado no desespero de não lembrar da identidade que assumi no dia anterior. Outro dia se passou e mais um começou: adentrei o labirinto e estou prestes a correr em círculos mais uma vez.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Delicado

 Delicado como uma pétala de flor. Meu amor é jovem, delicado, quebradiço. Você não é frágil, mas delicado com as palavras. Elas me tocam, por dentro e por fora, fazem cócegas, me adoram e eu as adoro.  Um suspiro, talvez dois, então você vai embora. É tão delicado, suas mãos tocam meu rosto sem estarmos perto um do outro. Delicado, eu o beijo em meus pensamentos, sinto-o me envolver em abraços acolhedores, e a tempestade vai embora. Estamos sozinhos. Juntos , mas sozinhos. Delicados são meus sorrisos quando penso em você. O coração anseia, o rosto queima, eu sinto que posso morrer. Caio sobre nuvens e flutuo por céus escuros, vagando por um vasto mundo. Eu contemplo tudo: delicado . A vida é frágil, podendo ser rude, bruta, mas ainda é bela. Então dançamos juntos, a noite toda na passarela. Suas mãos exploram minha cintura, e eu o ataco com os lábios meus.  Um suspiro, talvez dois, e repetimos outra vez. Delicado; este mapa mental, tão bagunçado, desorganizado, levou-me...

Às vezes é só você.

  Às vezes tudo o que eu penso é sobre você. A parte engraçada dessa declaração é que eu sequer sei como deveria pensar em ti, pois não há um rosto ou uma voz na qual fantasiar. Então uso e abuso dos borrões que tomam meus pensamentos; a escuridão cravada em tua pele, arrasta para seu rosto e torna-o parte de si. Você faz parte das sombras que me perseguem, é um fantasma sem rosto que, mesmo me assustando, me apavorando, eu continuo desejando mais e mais a cada dia passado. É você, sou eu e a distância entre nós. Preenchi esse vazio com sonhos alucinantes. São sonhos, mas são tudo o que eu tenho. E é a única coisa que nos torna próximos, juntos, embora sejamos desconhecidos. Porque eu quero você tanto quanto desejo morrer por me iludir com vários nada. Você é nada, e eu sou sua escuridão. Ambos somos fantasmas, borrões, sombras, memórias sem rosto. E ainda assim, às vezes eu só penso em você. 

O inverno é o inferno

Se a beleza é relativa, o que garante que o sangue que faz meus olhos brilharem  — aquele que torna meu ser mais vivo  — contém uma beleza real? Mesmo que requintada, mesmo que eu a aprecie sozinho... Ela é verdadeiramente linda, como eu imagino? Posso estar cego. Eu sei  que estou cego. Não consigo entender o mundo, não o vejo da maneira que deveria. Sua essência e aquela que sinto ser sua essência são coisas diferentes, fora do meu controle. Eu não posso continuar brincando comigo. Terei que jogar a boneca fora. Devo enforcá-la, ou fazê-la ter uma overdose? Devo arremessar o brinquedo na rua ou de uma ponte? Como eu me livro dessa maldita boneca desgraçada , que todos preferem que esteja morta, pois é mais fácil esquecer a lidar com o problema? Mas a boneca nunca vai embora, não é? Eu sempre a mantenho guardada aqui por medo de precisar dela um dia. Mesmo odiando a boneca, mesmo odiando ela , mesmo eu me  odiando... ainda estou aqui. Se eu realmente quisesse, eu po...